SOLITUDE - Projeto artístico comunitário
Encontram-se abertas as candidaturas para participação do projeto artístico comunitário SOLITUDE, um projeto desenvolvido no âmbito de Évora Capital Europeia da Cultura 2027.
O projeto SOLITUDE centra-se na dualidade da solidão — como experiência de sofrimento e isolamento, mas também de encontro interior e autorreflexão — abordando-a como fenómeno social contemporâneo, particularmente marcado no Alentejo pelo envelhecimento das populações e pela insularidade dos territórios. O projeto estabelece como objetivo principal a reflexão do sentimento de solidão de lugares e/ou pessoas, identificado como uma experiência comum interpares positiva ou negativa e provocando uma série de emoções a quem a vive.
O resultado final é a criação de 4 performances (“as solitudes”), onde cada participante selecionado trabalhará em dupla com um dos 4 artistas performers do projeto, partindo das suas vivências, memórias e histórias de vida.
Para isso, procuramos 4 participantes com idade igual ou superior a 65 anos provenientes das 4 sub-regiões do Alentejo: Alentejo Central (concelho de Montemor-o-Novo), Alentejo Litoral (concelho de Sines), Alto Alentejo (concelho de Castelo de Vide) e Baixo Alentejo (concelho de Serpa).
As "solitudes"
A escolha de Castelo de Vide nasce de um desejo de cruzar fronteiras. Ali, essa linha nunca foi um traço sobre
um mapa. Foi uma forma de respirar. Um território onde o corpo media a distância entre o perigo e a liberdade,
entre permanecer e partir.
Entre Portugal e Espanha desenhou-se uma geografia invisível feita de contrabando, de fugas e de resistência.
Caminhava-se de noite. O silêncio tinha peso. Cada travessia inventava uma maneira de existir. O corpo
guardava o ritmo dos passos, a pausa antes do encontro, o desvio, a espera. A fronteira escrevia-se na pele
antes de existir na paisagem.
Hoje, o caminho permanece aberto, enquanto os gestos se recolhem à memória dos que os viveram. Interessa-
me esse espaço onde a História se torna íntima, onde um movimento do corpo pode transportar um tempo inteiro.
O projeto nasce do encontro com uma única pessoa. Uma conversa longa. Uma escuta paciente. Alguém que
deseje abrir a memória das travessias, do contrabando, da resistência ou simplesmente da vida quotidiana junto
à fronteira. Uma voz suficiente para fazer emergir muitas outras.
A palavra, o silêncio, as marionetas, os objetos e a matéria serão o lugar dessa investigação. Procuro seguir a
memória do corpo: a forma como um gesto atravessa décadas, como um movimento continua presente quando
o território já mudou.
Com Vagar, imagino um dispositivo entre instalação e performance onde a fronteira deixa de ser um limite
geográfico para voltar a ser um lugar de passagem. Um espaço onde o invisível encontra corpo e onde uma
memória individual continua a deslocar a nossa forma de olhar o presente.
O território de investigação foi-me atribuído pelo próprio projeto. Como um dos artistas que não reside em Portugal, recebi um território específico e um acontecimento histórico a partir do qual iniciar o meu trabalho: a Reforma Agrária portuguesa de 1974 e 1975.
No entanto, o meu interesse não se dirige à narrativa oficial da História, mas àquilo que permanece oculto sob ela. Interessa-me aproximar-me das vidas daqueles que atravessaram esse momento histórico sem nunca ocuparem um lugar nos livros: as pessoas que trabalhavam a terra, as mulheres que sustentaram as casas e as cooperativas, os jovens de então, as crianças que assistiram a essas transformações, as conversas à volta de uma mesa, os objetos que ainda hoje se conservam, os silêncios e as contradições que permanecem na memória.
Quero trabalhar com pessoas com 65 ou mais anos que viveram a Reforma Agrária na primeira pessoa e colocar essas memórias em diálogo com jovens que nasceram num tempo muito diferente. Não procuro reconstruir um acontecimento histórico, mas criar um encontro entre gerações, um espaço onde a memória se possa transformar numa experiência partilhada e não apenas num relato do passado.
A Reforma Agrária portuguesa de 1974 e 1975 ocupa hoje um lugar singular: permanece suficientemente próxima para ainda poder ser contada por quem a viveu, mas também suficientemente distante para que essas vozes comecem a desaparecer com elas. É precisamente nesse limiar que nasce este projeto.
Vivemos num tempo marcado pela aceleração e por um discurso que privilegia apenas o presente. O passado parece ter deixado de importar e o futuro é frequentemente vivido com incerteza. Pergunto-me se é possível construir uma esperança coletiva quando um destes tempos desaparece. O que acontece ao tecido social quando deixamos de o alimentar com a memória e com a imaginação do futuro?
Imagino o tempo como um organismo vivo. O passado são as raízes que sustentam; o presente é o tronco que nos mantém de pé; o futuro são os ramos, as folhas e as flores que ainda estão por nascer. Separados, estes tempos perdem o seu sentido. Juntos formam um mesmo corpo.
Este projeto nasce do desejo de cuidar desse organismo. De escutar antes de interpretar. De recuperar pequenas histórias, memórias fragmentárias, fotografias esquecidas, objetos do quotidiano e vozes anónimas que correm o risco de desaparecer. Porque talvez a verdadeira História não resida apenas nos grandes acontecimentos, mas na vida silenciosa daqueles que os tornaram possíveis sem nunca integrarem a narrativa oficial.
Neste sentido, o projeto dialoga com o conceito de intrahistória, formulado por Miguel de Unamuno, essa corrente profunda e silenciosa que sustenta a História visível, e com a obra de W. G. Sebald, que entendia que a memória coletiva também se constrói a partir dos vestígios frágeis daqueles que permaneceram à margem das narrativas oficiais. Ambos nos convidam a olhar para baixo, para as vidas aparentemente insignificantes, para descobrir que é precisamente aí que permanece a verdadeira continuidade de uma comunidade.
Mais do que revisitar um episódio histórico, este projeto procura criar um espaço onde diferentes gerações possam encontrar-se, escutar-se e imaginar em conjunto novas formas de relação entre memória, território e futuro.
Sou beirão por nascimento, tripeiro com legitimidade por exercício mas aprendi a falar português com sotaque do Alentejo Litoral. Vivi entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 em Sines. Guardo deste tempo memórias que se tornaram parte da minha mitologia pessoal e íntima.
Acontecimentos grande e pequenos, descobertas, proezas e aventuras que, à escala de quem ainda tinha muito para crescer, foram marcantes.
Brincávamos na rua.
Havia uma nave do Espaço 1999 no parque infantil.
Faziam-se sardinhadas.
Brincávamos aos médicos.
Um dia segui os pipe-lines até à refinaria. A luz do farol cruzava os céus materializada na humidade da noite. Um petroleiro explodiu no porto, os rebocadores salvaram o dia. Salvei a minha irmã pequena de um afogamento numa passagem subterrânea inundada. Por cima passavam camiões gigantescos carregados com elementos em betão para a construção do pontão. Havia alcatrão na areia da praia, como na canção do Fausto.
Andei à luta.
Levei mais do que dei.
Era pacifista.
Provei comida africana muito picante com os operários cabo-verdianos que estavam a construir o prédio ao lado da minha casa.
Era internacionalista e anti-racista.
Tivemos uma cadela com pelo comprido e castanho-escuro, quando parmos ela ficou. Vagar. O tempo antes do trabalho. Vivi a primeira infância nesta terra. Antes de entrar para a escola. A escola é o trabalho das crianças. Descobri que era um castigo que todos os meninos e meninas – mesmo os que se portam bem – tinham de suportar. Nesse momento já não vivia em Sines.
Em Sines descobri sozinho o mundo, com um nível de autonomia que estava para além do meu corpo, da casa e do pátio. Andar sozinho e fazer amigos pelo caminho. Quando as luzes dos postes acenderem tens de voltar imediatamente para casa. Era a regra no Bairro Marítimo. Sinestesias
As memórias e as histórias são como as cerejas, quando se pega numa vem sempre outra agarrada. As memórias às vezes trazem histórias e o contrário também acontece. Outras vezes trazem coisas diferentes: um cheiro, uma emoção – ao contrário também pode acontecer. Nas sinuosas condutas da memória corre uma mistura fóssil carregada de energia. A memória é refinada de cada vez que é recordada, de cada vez que é actualizada.
Hoje a refinaria ainda processa os combustíveis fósseis, matéria orgânica decomposta e comprimida ao longo de milhões de anos. O data center já processa e refina a matéria cognitiva de milhões, decomposta e comprimida. O que hoje tem um valor estratégico e financeiro poderá ser prova forense num dado momento – um fantasma que paira sobre cada gesto com expressão electrónica feito nos dias de hoje.
Será tudo convertido em arqueologia num futuro mais ou menos distante? Ou talvez estejamos já a produzir um “crude-futuro”, feito da memória e da energia vital de milhares de milhões. O que vamos fazer com tudo isto? Entre o passado e o futuro diz-se que há aquela coisa fugidia a que chamamos presente.
Neste projeto de criação vamos trabalhar sobre a percepção do tempo, afinal estávamos a falar de uma vida ou de uma tarde de verão? Pensei sobre as minhas memórias em Sines – seleccionei uma pequena parte, episódios da vida de uma criança a crescer, ao mesmo tempo, pistas sobre a história da cidade e do país. As nossas vidas encontram-se com a história a acontecer? Teremos essa consciência? Será possível colocar memórias em diálogo? Como se poderão materializar estas em cena?
Vamos criar uma peça curta que parte de interrogações como estas para um caminho que ainda está por inventar.
Alguém se quer juntar nesta aventura?
As imagens que tenho do Alentejo são as de quem não conhece bem, imagens de quem visitou um pouco uma cidade ou vila e mais amiúde as praias. Um conhecimento superficial, de turista que tem a sorte de falar a língua, sendo eu do Norte, do Porto. Na minha ignorância, guardo com muito prazer as paisagens imensas do interior e das falésias do litoral. Guardo também os sons do canto alentejano.
Quando me foi proposto o projeto Solitude pela companhia Alma de Arame, fui confrontada com a necessidade de escolher uma sub-região. A escolha não se fez pela razão, mas por sentimento. Foi o canto que prevaleceu como curiosidade maior, como ligação às pessoas que permanecem no território. Por isso escolhi o Baixo Alentejo como ponto de partida para esta aventura e especificamente a cidade de Serpa como pouso para a minha exploração.
O canto será sem dúvida um dos pilares deste encontro entre mim, a solidão (tema geral deste projeto), o território que escolhi, e a pessoa que procuro encontrar através deste apelo à participação. O segundo pilar será feito das histórias que o, ou a parceira, desta criação me contará. Histórias de ausência, de solidão, onde os que se foram serão evocados pelas palavras cantadas e ditas, pelas ações, pelos gestos e os objetos que serão inventados para as contar. A memoria individual, o caso particular, que serve de reflexo ou de eco ao destino de uma terra inteira.
Encaro trabalho com o meu binómio como uma verdadeira parceria criativa: um fornece a matéria a trabalhar (a memória, as peripécias); eu fornecerei o modo de ancorar essa memória num palco, nos objetos. Juntos teremos a responsabilidade de dar voz às ausências e aos silêncios.
A escolha de Castelo de Vide nasce de um desejo de cruzar fronteiras. Ali, essa linha nunca foi um traço sobre
um mapa. Foi uma forma de respirar. Um território onde o corpo media a distância entre o perigo e a liberdade,
entre permanecer e partir.
Entre Portugal e Espanha desenhou-se uma geografia invisível feita de contrabando, de fugas e de resistência.
Caminhava-se de noite. O silêncio tinha peso. Cada travessia inventava uma maneira de existir. O corpo
guardava o ritmo dos passos, a pausa antes do encontro, o desvio, a espera. A fronteira escrevia-se na pele
antes de existir na paisagem.
Hoje, o caminho permanece aberto, enquanto os gestos se recolhem à memória dos que os viveram. Interessa-
me esse espaço onde a História se torna íntima, onde um movimento do corpo pode transportar um tempo inteiro.
O projeto nasce do encontro com uma única pessoa. Uma conversa longa. Uma escuta paciente. Alguém que
deseje abrir a memória das travessias, do contrabando, da resistência ou simplesmente da vida quotidiana junto
à fronteira. Uma voz suficiente para fazer emergir muitas outras.
A palavra, o silêncio, as marionetas, os objetos e a matéria serão o lugar dessa investigação. Procuro seguir a
memória do corpo: a forma como um gesto atravessa décadas, como um movimento continua presente quando
o território já mudou.
Com Vagar, imagino um dispositivo entre instalação e performance onde a fronteira deixa de ser um limite
geográfico para voltar a ser um lugar de passagem. Um espaço onde o invisível encontra corpo e onde uma
memória individual continua a deslocar a nossa forma de olhar o presente.
O território de investigação foi-me atribuído pelo próprio projeto. Como um dos artistas que não reside em Portugal, recebi um território específico e um acontecimento histórico a partir do qual iniciar o meu trabalho: a Reforma Agrária portuguesa de 1974 e 1975.
No entanto, o meu interesse não se dirige à narrativa oficial da História, mas àquilo que permanece oculto sob ela. Interessa-me aproximar-me das vidas daqueles que atravessaram esse momento histórico sem nunca ocuparem um lugar nos livros: as pessoas que trabalhavam a terra, as mulheres que sustentaram as casas e as cooperativas, os jovens de então, as crianças que assistiram a essas transformações, as conversas à volta de uma mesa, os objetos que ainda hoje se conservam, os silêncios e as contradições que permanecem na memória.
Quero trabalhar com pessoas com 65 ou mais anos que viveram a Reforma Agrária na primeira pessoa e colocar essas memórias em diálogo com jovens que nasceram num tempo muito diferente. Não procuro reconstruir um acontecimento histórico, mas criar um encontro entre gerações, um espaço onde a memória se possa transformar numa experiência partilhada e não apenas num relato do passado.
A Reforma Agrária portuguesa de 1974 e 1975 ocupa hoje um lugar singular: permanece suficientemente próxima para ainda poder ser contada por quem a viveu, mas também suficientemente distante para que essas vozes comecem a desaparecer com elas. É precisamente nesse limiar que nasce este projeto.
Vivemos num tempo marcado pela aceleração e por um discurso que privilegia apenas o presente. O passado parece ter deixado de importar e o futuro é frequentemente vivido com incerteza. Pergunto-me se é possível construir uma esperança coletiva quando um destes tempos desaparece. O que acontece ao tecido social quando deixamos de o alimentar com a memória e com a imaginação do futuro?
Imagino o tempo como um organismo vivo. O passado são as raízes que sustentam; o presente é o tronco que nos mantém de pé; o futuro são os ramos, as folhas e as flores que ainda estão por nascer. Separados, estes tempos perdem o seu sentido. Juntos formam um mesmo corpo.
Este projeto nasce do desejo de cuidar desse organismo. De escutar antes de interpretar. De recuperar pequenas histórias, memórias fragmentárias, fotografias esquecidas, objetos do quotidiano e vozes anónimas que correm o risco de desaparecer. Porque talvez a verdadeira História não resida apenas nos grandes acontecimentos, mas na vida silenciosa daqueles que os tornaram possíveis sem nunca integrarem a narrativa oficial.
Neste sentido, o projeto dialoga com o conceito de intrahistória, formulado por Miguel de Unamuno, essa corrente profunda e silenciosa que sustenta a História visível, e com a obra de W. G. Sebald, que entendia que a memória coletiva também se constrói a partir dos vestígios frágeis daqueles que permaneceram à margem das narrativas oficiais. Ambos nos convidam a olhar para baixo, para as vidas aparentemente insignificantes, para descobrir que é precisamente aí que permanece a verdadeira continuidade de uma comunidade.
Mais do que revisitar um episódio histórico, este projeto procura criar um espaço onde diferentes gerações possam encontrar-se, escutar-se e imaginar em conjunto novas formas de relação entre memória, território e futuro.
Sou beirão por nascimento, tripeiro com legitimidade por exercício mas aprendi a falar português com sotaque do Alentejo Litoral. Vivi entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 em Sines. Guardo deste tempo memórias que se tornaram parte da minha mitologia pessoal e íntima.
Acontecimentos grande e pequenos, descobertas, proezas e aventuras que, à escala de quem ainda tinha muito para crescer, foram marcantes.
Brincávamos na rua.
Havia uma nave do Espaço 1999 no parque infantil.
Faziam-se sardinhadas.
Brincávamos aos médicos.
Um dia segui os pipe-lines até à refinaria. A luz do farol cruzava os céus materializada na humidade da noite. Um petroleiro explodiu no porto, os rebocadores salvaram o dia. Salvei a minha irmã pequena de um afogamento numa passagem subterrânea inundada. Por cima passavam camiões gigantescos carregados com elementos em betão para a construção do pontão. Havia alcatrão na areia da praia, como na canção do Fausto.
Andei à luta.
Levei mais do que dei.
Era pacifista.
Provei comida africana muito picante com os operários cabo-verdianos que estavam a construir o prédio ao lado da minha casa.
Era internacionalista e anti-racista.
Tivemos uma cadela com pelo comprido e castanho-escuro, quando parmos ela ficou. Vagar. O tempo antes do trabalho. Vivi a primeira infância nesta terra. Antes de entrar para a escola. A escola é o trabalho das crianças. Descobri que era um castigo que todos os meninos e meninas – mesmo os que se portam bem – tinham de suportar. Nesse momento já não vivia em Sines.
Em Sines descobri sozinho o mundo, com um nível de autonomia que estava para além do meu corpo, da casa e do pátio. Andar sozinho e fazer amigos pelo caminho. Quando as luzes dos postes acenderem tens de voltar imediatamente para casa. Era a regra no Bairro Marítimo. Sinestesias
As memórias e as histórias são como as cerejas, quando se pega numa vem sempre outra agarrada. As memórias às vezes trazem histórias e o contrário também acontece. Outras vezes trazem coisas diferentes: um cheiro, uma emoção – ao contrário também pode acontecer. Nas sinuosas condutas da memória corre uma mistura fóssil carregada de energia. A memória é refinada de cada vez que é recordada, de cada vez que é actualizada.
Hoje a refinaria ainda processa os combustíveis fósseis, matéria orgânica decomposta e comprimida ao longo de milhões de anos. O data center já processa e refina a matéria cognitiva de milhões, decomposta e comprimida. O que hoje tem um valor estratégico e financeiro poderá ser prova forense num dado momento – um fantasma que paira sobre cada gesto com expressão electrónica feito nos dias de hoje.
Será tudo convertido em arqueologia num futuro mais ou menos distante? Ou talvez estejamos já a produzir um “crude-futuro”, feito da memória e da energia vital de milhares de milhões. O que vamos fazer com tudo isto? Entre o passado e o futuro diz-se que há aquela coisa fugidia a que chamamos presente.
Neste projeto de criação vamos trabalhar sobre a percepção do tempo, afinal estávamos a falar de uma vida ou de uma tarde de verão? Pensei sobre as minhas memórias em Sines – seleccionei uma pequena parte, episódios da vida de uma criança a crescer, ao mesmo tempo, pistas sobre a história da cidade e do país. As nossas vidas encontram-se com a história a acontecer? Teremos essa consciência? Será possível colocar memórias em diálogo? Como se poderão materializar estas em cena?
Vamos criar uma peça curta que parte de interrogações como estas para um caminho que ainda está por inventar.
Alguém se quer juntar nesta aventura?
As imagens que tenho do Alentejo são as de quem não conhece bem, imagens de quem visitou um pouco uma cidade ou vila e mais amiúde as praias. Um conhecimento superficial, de turista que tem a sorte de falar a língua, sendo eu do Norte, do Porto. Na minha ignorância, guardo com muito prazer as paisagens imensas do interior e das falésias do litoral. Guardo também os sons do canto alentejano.
Quando me foi proposto o projeto Solitude pela companhia Alma de Arame, fui confrontada com a necessidade de escolher uma sub-região. A escolha não se fez pela razão, mas por sentimento. Foi o canto que prevaleceu como curiosidade maior, como ligação às pessoas que permanecem no território. Por isso escolhi o Baixo Alentejo como ponto de partida para esta aventura e especificamente a cidade de Serpa como pouso para a minha exploração.
O canto será sem dúvida um dos pilares deste encontro entre mim, a solidão (tema geral deste projeto), o território que escolhi, e a pessoa que procuro encontrar através deste apelo à participação. O segundo pilar será feito das histórias que o, ou a parceira, desta criação me contará. Histórias de ausência, de solidão, onde os que se foram serão evocados pelas palavras cantadas e ditas, pelas ações, pelos gestos e os objetos que serão inventados para as contar. A memoria individual, o caso particular, que serve de reflexo ou de eco ao destino de uma terra inteira.
Encaro trabalho com o meu binómio como uma verdadeira parceria criativa: um fornece a matéria a trabalhar (a memória, as peripécias); eu fornecerei o modo de ancorar essa memória num palco, nos objetos. Juntos teremos a responsabilidade de dar voz às ausências e aos silêncios.