O

traço distintivo destas residências artísticas reside naquilo que elas comportarão num futuro próximo em termos de um produto acabado, ou seja, espectáculos que serão apresentados, ou no nosso encontro anual, em alguma da programação que faremos ou, ainda, que serão exibidos não só em Portugal mas também internacionalmente.

Pretende-se com estas residências, de âmbito nacional e internacional, incentivar a aplicação do trabalho laboratorial à criação e proporcionar a convivialidade local com as metodologias da criação aproveitando os recursos existentes e torná-los acessíveis ao artistas em comunhão com a comunidade.

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA ||

REFLEXÃO DE LUZ

Por Vasco Costa e José Nuno Lima

PROPOSTA

Residência artística exploratória da mais essencial forma de ver a reflexão de Luz.

 

REFLEXÃO DE LUZ

Conflito experimental entre matéria, forma e percepção.

 

A reflexão de luz como tudo que é perceptível sobre a qualidade da luz projectada, desde a percepção das formas, as cores, o espaço até á ilusão.

O objectivo desta proposta de residência tem como principio a exploração da capacidade da Luz na sua qualidade base da propagação e da reflexão. A proposta pretende reunir por duas a três semanas em Montemor este encontro experimental entre um artista visual e um desenhador de luz do campo do espectáculo, nomeadamente teatro, palco e rua.

Os proponentes são Vasco Costa, artista plástico e José Nuno Lima, desenhador de luz

A exploração centrar-se-á na pesquisa de encontro entre objectos e materiais reflectores submetidos a vários exercícios e experiencias em torno da sua projecção, reflexão, cor e desenho no espaço.

A pesquisa da luz dever-se-á processar me ambientes específicos de laboratório, tais como Blackbox (espaço negro) e white cube (espaço branco) no qual se experimentará diferentes fontes de luz nomeadamente através de projectores de recorte, robots de luz, pares, etc., com variados tipos de luz, desde a lâmpada de tungsténio, halogeno, led e inclusive luz natural, solar.

O material técnico utilizado, equipamento, materiais e suas ferramentas serão essencialmente material próprio, tanto no caso dos materiais como dos projectores.

Á estrutura de acolhimento apenas se requisitará a facilitação de espaços para trabalho mais o acolhimento de estadia e refeições e um budget para a exploração.

No final desta exploração, incluirá uma mostra ao público, uma apresentação que poderá ter ou o formato modelo de exposição ou evento (acontecimento). No qual estes dispositivos e descobertas exploradas serão apresentadas.

2016

"SOLITÁRIA"

Uma criação Alma d’Arame

Um espaço-laboratório. Um lugar de exploração do corpo como interface de interacção com a máquina. O corpo desdobra-se em dois sentidos: o sentido real (actor), a interpretar o movimento; o sentido virtual (manipulador), onde o corpo se apresenta como um meio de manipulação da marioneta e de tudo o que a envolve.

Um espaço de experimentação da linguagem e expressividade do corpo e da procura de narrativas nas relações estabelecidas entre o movimento do corpo, da imagem animada e do som.

Na procura de uma linguagem gestual particular, que em simultâneo permita a comunicação e a manipulação de objectos performativos.

A palavra é substituída pela linguagem corporal interpretada à luz da quinésica. O movimento cinético do corpo e a forma como este ocupa o espaço vazio constroem uma narrativa visual e sonora.

 

Referências:

"Se, fechado na nossa linguagem, tu não entendes os nossos argumentos, se te falta a palavra, fala-nos com gestos bárbaros".

ÉSQUILO, Agamémnon

"…geralmente, todo o gesto tem um som que lhe é paralelo"

NIETZSCHE, A concepção dionisíaca do mundo (1870)

FICHA TÉCNICA

Direcção artística | Amândio Anastácio

Interpretação | Amândio Anastácio

Multimédia | Luís Grifu

Música | João Bastos

Desenho de Luz | João Sofio

Direcção de Produção | Isabel Pinto Coelho

Assistente de Produção | Alexandra Anastácio

 

1ª Residência de exploração | 2013

2ª Residência de exploração | 2015

Em termos gráficos, tentamos uma abordagem gráfica e minimal dando foco ao vazio e ao silêncio. Os elementos gráficos são gerados fundamentalmente a partir de linhas que nos remetem para as grades da prisão. Surgem igualmente letras para caracterizar as memórias e as silhuetas como representação do real. Mas esta realidade vai sendo linearizada (esquecida) começando com as silhuetas evoluindo até ao seu estado sintetizado, linhas que ganham expressão. Em termos de interacção trabalhamos o corpo e objectos no espaço e no tempo. Começa-se por trabalhar o corpo e objectos no espaço da solitária, depois exploramos o espaço do próprio corpo explorando a relação espacial entre as mãos e centro gravitacional do corpo, finalmente retorna-se ao espaço da solitária relacionando o corpo com o espaço físico. Utiliza-se um sensor de profundidade e câmaras de vídeo.

 

2015

"CONTOS DO ARCO DA VELHA"

Residência de Criação

Sinopse

“Era uma velha que morava numa ilha e tinha um gato que se chamava Ervilha...”, mas esse gato um dia foi embora.

A história que despoleta essa partida é a primeira recordação que, junto ao seu fogão de lenha, a D. Chica partilha com quem a vê e ouve – a história do esturjão que concede três oferendas à velhinha, no caso desta o devolver à água.

Apesar da partida, o seu Ervilha permanece sempre fiel e amigo e continua a dar notícias àquela que foi sua dona, por carta. É num desses escritos que a D. Chica acaba por desvendar e revelar as aventuras do gato Ervilha que, contrariamente a todos os outros gatos, não sabe voar.

Por fim, a simpática velhinha lembra-se de mais uma carta, que conta a peripécia vivida entre os Senhores Corvos, auxiliados pelo sábio Sr. Mocho, e a senhora Cobra, que teima comer-lhes todos os seus ovos.

Estes são os Contos do Arco da Velha para se ver, ouvir e deliciar.

FICHA ARTÍSTICA

Encenação | Raul Constante Pereira

Dramaturgia | Joana Luz Figueira

Interpretação | Joana Luz Figueira, Raul Constante Pereira e Sofia Silva

Cenografia e Marionetas | Sofia Silva

Construção Cénica | Raul Constante Pereira e Sofia Silva

Direcção de Produção | Pedro Leitão

Co-Produção | Alma d’Arame

 

Duração | Aprox. 45 Minutos

Classificação etária | Maiores de 4 anos

Público-alvo | 1º e 2º Ciclo e público em geral

Tipologia | Teatro de Marionetas e atores

2015

"AMPLIADOR"

Residência de Criação

Sinopse

AMPLIADOR é um espectáculo que pretende cruzar a exploração da obsolescência dos objectos com uma busca da essência da imagem na representação de mundos por parte do homem. A fotografia, desde as suas características mais elementares e que lhe serviram como ponto de partida (uma entrada de luz e uma superfície foto-sensível) é o eixo a partir do qual se pretende seguir a procura de geografias perdidas no seio da natureza intemporal do mundo. Este espectáculo pretende colocar em cena três pessoas e um ampliador de fotografia de grande formato transformado em projector de imagens, um herdeiro directo da novecentista lanterna mágica e da tradição do teatro de sombras.

FICHA TÉCNICA

Projecto | João Calixto e Frederico Lobo

Criação-Interpretação-Operação | Frederico Lobo, Hugo Almeida e João Calixto

Cenografia e Máquinas | João Calixto e Hugo Almeida

Fotografia | Frederico Lobo

Coord. Técnica Laboratório | Paula Lourenço

Apoio Técn. Luz e Som | João Sofio

Produção e Coord. Pedagógica | Rita Hermínio

 

Produção | Alma d’Arame - Ass. cultural

Co-produção | Fosso de Orquestra

 

Apoios | Fundação Calouste Gulbenkian, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Cinemateca Portuguesa

Estrutura financiada por | Governo de Portugal - Secretário de Estado de Portugal, DGartes – Direcção Geral das Artes

Parceiro Estratégico | Oficinas do Convento - Centro UNESCO

 

Agradecimentos | Paulo Andringa, Miguel Duarte, Ema Brito, Rancho Folclórico Ponte Sôr, António Rocha, Cinemateca Portuguesa - Centro Conservação (ANIM), Ricardo Leite, Casa da Imagem - Fundação Manuel Leão, Rosa Imunda, Márcia Lança, Mário Melo Costa, Nuno Tomaz.

"VELHICE"

Residência de Criação

Sinopse

Residência artística com o objectivo de explorar a matéria que irá servir para a dramaturgia da performance VELHICE, através da exploração das capacidades plásticas da terra (barro, cerâmica) e do som que irá servir de igual modo como base narrativa do texto, procurando fusões e novas possibilidades entre som, música e teatro de objectos, pretendendo-se explorar novas possibilidades expressivas para a performance ao vivo.

Ficha Artística:

Virgínia Fróis, Amândio Anastácio, João Bastos e João Sofio

 

 

Co – Produção: Oficinas do Convento

Apoio: Câmara Municipal de Montemor-o-Novo

 

Estrutura financiada por:

Governo de Portugal - Secretário de Estado de Portugal

DGartes – Direcção Geral das Artes

"Boris Chimp 504 + Alma d´Arame"

Sinopse

Residência artística com o objectivo de explorar novas tecnologias, interfaces e sistemas audiovisuais interativos para artes cénicas.

Através de uma série de estratégias tecnológicas como "computer vision", análise de movimento, análise de som, 3D projection mapping, interfaces gestuais, realidade aumentada, entre outras, pretende-se explorar novas possibilidades expressivas para a performance ao vivo.

O principal foco dos trabalhos será procurar aumentar o mundo físico através da sobreposição com o mundo digital criando deste modo uma realidade mista e/ou paralela onde elementos reais interagem com elementos virtuais. O plano de trabalho passará por criar uma serie de soluções para instrumentos audiovisuais interativos que disponibilizem ao performer novas ferramentas para a manipulação de som, imagem e movimento dentro do espaço cénico, soluções estas que mais tarde possam ser integradas em situações performativas reais. Com esta exploração tecnológica não se pretende criar ruído entre a audiência e os performers ou obstruções tecnológicas aos actores, mas sim aumentar as capacidades físicas e dimensionais do espaço e expressivas do(s) performer(s),  ajudando assim a criar novos mundos alternativos, mágicos e hiper-sensoriais para o espectador.

 

RESULTADO FINAL

 

Em Dezembro de 2014 passámos uma semana em residência explorativa com a Alma d´Arame em Montemor-o-Novo.

O objetivo passou por explorar estruturas físicas, eletrónicas, servos, som e efeitos visuais como forma de criar um mecanismo reactivo que poderá ser usado em apresentações ao vivo ou como instalação.

Ligámos triângulos em fila até aos motores-servo e explorámos formas de as usar como peças performativas. Durante a semana, experimentámos várias alternativas de interacção com a peça, como automatizar com diferentes LFO´s, reagindo com o som ou reagindo com o movimento (salto, sensor Kinect 3d)

No final da semana fizemos uma pequena apresentação ao público, construindo uma peça integrada com efeitos visuais e sonoros ao vivo. Os motores reagiram a LFO´s diferentes com manipulação ao vivo e os efeitos visuais reagiram aos movimentos dos servos e do som, enquanto este era tocado ao vivo e reagia também ao movimento do motor (através do recebimento das mesmas mensagens LFO e do som do piezo ligado à estrutura).

No final da apresentação convidámos o público a interagir com a peça como numa instalação interativa.

 

RESIDÊNCIA DE EXPLORAÇÃO

FICHA ARTÍSTICA:

Miguel Neto, Rodrigo Carvalho e Amândio Anastácio

 

Produção: ALMA DE ARAME

Parceria: Espaço do Tempo

Apoio: Câmara Municipal de Montemor-o-Novo

 

Estrutura financiada por:

Governo de Portugal - Secretário de Estado de Portugal

DGartes – Direcção Geral das Artes

"Paisagens rápidas"

AMÂNDIO ANASTÁCIO + MARCO FIDALGO

SÍNTESE PARA UM PROJECTO

A DESENVOLVER EM REGIME DE RESIDÊNCIA

São novas avenidas estas auto-estradas que se apresentam hoje cruzando um território do "natural" transformado em novas zonas verdes do território habitado.

Surgem como pista rápida que rasgam o território e vão produzindo a união de várias urbes estas novas avenidas  que tendem a fabricar uma nova e gigantesca metrópole, praticamente sem limites.

A sua construção na paisagem é realizada rasgando a terra, formando linhas que já não “correm” entre os prédios e fachadas, mas entre as grandes massas de terreno estratificado.

 

É dentro neste universo que desenvolve o projecto "Paisagens rápidas".

Um projecto que invoca em origem, a estrita relação que o corpo estabelece com a noção de manipulação, de velocidade e de território.

 

Promovendo linhas, formas, objectos e imagens manipuladas e manipuláveis, resgatadas de uma narrativa provocada pela deslocação, dentro do palco espectral que se apresenta hoje como sendo a estrada.

Em viagem, na corrida, em velocidade, e conduzindo um "automóbile" num movimento perpétuo, o olhar provoca a mente que tende a ver a realidade de uma forma distorcida.

 

Partindo destas noções, pretende-se produzir uma construção/instalação onde a representação de "paisagem" se afasta das suas convenções mais clássicas, descolando-se da sua condição original de solo, afastando-se de delimitações estáveis, horizontais, determinadas ou homogéneas.

Pensada como algo amplo, próximo da categoria de um sistema (topográfico!?) interactivo que assim se descola do seu sistema fixo, passando a ser concebido como plataforma concebida na e para a manipulação.

facsimile

Fosso de Orquestra

JOÃO CALIXTO

SÍNTESE PARA UM PROJECTO

A DESENVOLVER EM REGIME DE RESIDÊNCIA

Esta residência tem como objetivo levantar possibilidades técnicas e poéticas sobre a projeção de imagem, para a criação de um espetáculo a estrear durante o biénio de 2013/14. A convite da Alma d’Arame – Associação cultural, este processo decorrerá entre 1 e 31 de Agosto, acolhido nos laboratórios, oficinas e estúdio das Oficinas do Convento – Associação Cultural de Arte e Comunicação, em Montemor-o-Novo.

Antecipando esta fase do projecto, estão previstas durante o mês de Julho algumas actividades de pesquisa. A primeira actividade prevista é uma visita noturna às gravuras de Foz Côa, em busca da visão de um possível proto cinema. Seguidamente passaremos pelo Museu de Imagem em Movimento em Leiria, com o objectivo de analisar e observar o espólio deste museu composto por diversas máquinas referentes aos meios de reprodução de imagem em movimento desenvolvidos pela sociedade ao longo dos séculos.

 

 FICHA TÉCNICA

 

Criação

João Calixto, Frederico Lobo e Márcia Lança

 

Projecto

João Calixto

 

Direcção Produção

Sérgio Parreira

 

Produção

Fosso de Orquestra

 

Co-produção

Alma d’Arame – associação cultural

 

Parceiros

Oficinas do Convento

AGO 2013

“BARBÁRIE”

Um espaço-laboratório. Um lugar de exploração do corpo como interface de interacção com a máquina. O corpo desdobra-se em dois sentidos: o sentido real (actor), a interpretar o movimento; o sentido virtual (manipulador), onde o corpo se apresenta como um meio de manipulação da marioneta e de tudo o que a envolve.

Um espaço de experimentação da linguagem e expressividade do corpo e da procura de narrativas nas relações estabelecidas entre o movimento do corpo, da imagem animada e do som.

Na procura de uma linguagem gestual particular, que em simultâneo permita a comunicação e a manipulação de objectos performativos.

A palavra é substituída pela linguagem corporal interpretada à luz da quinésica. O movimento cinético do corpo e a forma como este ocupa o espaço vazio constroem uma narrativa visual e sonora.

 

referencias:

 

"Se, fechado na nossa linguagem, tu não entendes os nossos argumentos, se te falta a ê palavra, fala-nos com gestos bárbaros".

ÉSQUILO, Agamémnon

 

"…geralmente, todo o gesto tem um som que lhe é paralelo"

NIETZSCHE, A concepção dionisíaca do mundo (1870)

3/8 Dezembro

DEZ 2013

Dona Vontade

CATARINA MOTA

Respirar...

Respirar o tempo devagar...

O que vê neste banco de Jardim a velhice de

Dona Vontade e nos tranporta a ver e sentir?

Dona Vontade guia-nos nesta pequena viagem,

através  do prazer de a observar, para sítios que em vez de habitarmos, nos

habitam a nós.

A  simplicidade, a terra e o poder da Marioneta são a principal matéria

neste pequeno conto.

Serviu-nos de inspiração o Alentejo com a sua população envelhecida,

sentada ao sol do jardim, que sente o tempo como quem sabe que não

resta muito tempo a aproveitar.

 

ficha técnica:

Concepção: Catarina Mota

Construção: Catarina Mota e Amândio Anastácio

Apoio técnico: João Sofio e João Bastos

Agradecimentos: Projecto Ruinas, alunos de Mestrado de Teatro ramo actor- marionetista

da Universidade de Évora, Gonçalo Alegria, Anabela Ferreira e Ricardo e a sua familia Prometeu

MAR 2013

RSI ou O Discurso da Histérica

SUSANA NUNES

JAN 2013

Self-Accusation

de Peter Handke

Tradução para inglês de Michael Roloff

KASPAR And Other Plays. 1989. New York, Hill and Wang

 

 

Vim a este mundo.

Fui concebida. Diferenciei-me. Tornei-me. Nasci. Dei entrada no registo da conservatória. Cresci.

Comecei a mexer-me. A mexer partes do meu corpo. A mexer o corpo todo. A mexer-me sem sair do lugar. A mexer-me do lugar. A mexer-me de cá para lá. Tive de me mexer. Comecei a andar.

Mexi os lábios. Descobri os meus sentidos. Chamei a atenção. Gritei. Comecei a falar. Ouvi barulhos. Distingui os sons. Fiz barulhos. Emiti sons. Consegui falar. Consegui gritar. Aprendi a calar-me.

Consegui ver. Tomei consciência. Reconheci o que já tinha visto. Apercebi-me. Apercebi-me do que já me tinha dado conta. Tomei consciência. Reconheci o que já tinha notado.

Olhei. Vi coisas. Olhei as coisas que me mostravam. Mostrei as coisas que me tinham mostrado. Aprendi os nomes das coisas. Designei-as por esses nomes. Aprendi a designar coisas que não se podem mostrar. Aprendi. Memorizei. Lembrei-me dos signos que me tinham ensinado. Vi as formas que me mostravam. Chamei as formas semelhantes pelo mesmo nome. Reparei no que as distinguia das formas diferentes. Designei as formas que faltavam. Aprendi a recear as formas ausentes. Aprendi a desejar a presença das formas ausentes. Aprendi o significado das palavras “desejo” e “medo”.

Aprendi. Aprendi as palavras. Aprendi os verbos. Aprendi a não confundir “ser” com “ter sido”. Aprendi os substantivos. Aprendi a distinguir entre singular e plural. Aprendi os advérbios.Aprendi a distinguir o “aqui” do “ali”. Aprendi os pronomes demonstrativos. Aprendi a não confundir “este” e “aquele”. Aprendi os adjectivos. Aprendi a não confundir “bom” e “mau”. Aprendi os pronomes possessivos. Aprendi a não confundir “meu” e “teu”. Adquiri vocabulário.

Tornei-me o objecto de frases. Tornei-me o complemento de frases. Tornei-me o objecto e o complemento das orações principais e das proposições subordinadas. Tornei-me um movimento de lábios. Tornei-me uma sequência de letras do alfabeto.

Disse o meu nome. Disse Eu. Gatinhei. Corri. Corri em direcção a alguma coisa. Fugi de alguma coisa. Endireitei-me. Andei formando um quase ângulo recto com a Terra. Saltei. Desafiei a força da gravidade. Aprendi a não sujar as cuecas. Aprendi a controlar o meu corpo. Aprendi a dominar-me.

Aprendi a ser capaz. Tornei-me capaz. Tornei-me capaz de querer. Capaz de andar sobre duas pernas. Capaz de usar as mãos. Capaz de permanecer. Capaz de permanecer direita. Capaz de me prostrar. De rastejar. De fingir de morta. De reter a respiração. Tornei-me capaz de me matar.  De cuspir. De acatar ordens. De desobedecer. Tornei-me capaz de perguntar. Capaz de responder a perguntas. Capaz de imitar. De fazer como os outros. Capaz de jogar. Tornei-me capaz de fazer seja o que for. Capaz de falhar. De destruir coisas. De imaginar coisas. De estimar as coisas. De dizer coisas. Tornei-me capaz de me lembrar das coisas.

Vivi no tempo. Pensei no princípio e no fim. Pensei em mim. Pensei nos outros. Libertei-me da natureza. Tornei-me contra-natura. Reconheci que eu e tu não são o mesmo. Pude mostrar a minha verdade. Consegui dissimular a minha verdade.

Pude querer uma coisa. Pude não querer uma coisa.